"Se fosse uma peça de teatro, haveria um telefone no palco e elas em cena, faladoras, mas surdas. Falariam uma com a outra, sem se ouvirem nem se responderem. Duas tagarelas surdas. A mãe perguntaria “a sério, Filha, então não te lembras que te disse que chegava amanhã?”. A filha responderia “sim, espinafres, queres que congele?”."
Ao longo da vida falam sem se ver, imaginam-se: o rosto, o cheiro, as roupas, a maquilhagem, os gestos. A distância transforma-as em personagens, cada telefonema uma projeção e uma encenação em que se performam mutuamente.
As Telefones é um vislumbre de duas mulheres, mãe e filha, que mapeiam e edificam a intimidade de um amor fraturado e devorador — entre o fumo dos cigarros e o vapor dos banhos e das panelas ao lume erguem uma casa titubeante onde se acumulam as orações exorbitantes, os frémitos e os silêncios.
As Telefones, espectáculo inspirado na obra homónima de Djaimilia Pereira de Almeida, concretiza a segunda parte do DÍPTICO, um trabalho que resulta do encontro entre a encenadora Zia Soares e a escritora. A primeira parte, Pérola Sem Rapariga, integrou a Odisseia Nacional do TNDM II.